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segunda-feira, 7 de março de 2011

VELHA

A consciência, talvez já velha,
sente o peso da sobrevivência:
por entre seus dedos enrugados,
por sobre sua face violentada,
acima de sua cabeça um pano largado
afim de suavizar os raios ardentes e latejantes
que ousam-na ferir.
A consciência diante o que os olhos veem;
A consciência diante o que esses mesmos olhos querem ver...
Seria tudo dado ou construído?
Quem é o arquiteto dessa construção?
Quem é o manipulador desse dado?
Nada ao certo sabemos, e nossa ignorância
fingimos desconhecer.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Vendas²

Vendas... vendas... vendas:
nos olhos,
lojas nas praças,
verbo do tu.

Vendas vendendo vadias vendas
Vendas vilipendiando violentamente visões
Vendas tu, o teu próprio ser.

Atentais vossos olhos
às vendas que as vendas vendem,
vendando a humanidade,
vedando a liberdade,
sem ver...
Vendas... vendas...
não se venda!

sexta-feira, 2 de julho de 2010


As flautas não soam mais doces quanto outrora, o violino lança agora notas de angústia e cobrança: por que não entoastes outa canção?
O violão, a harpa, a rabeca e o pife reverteram suas musicidades
para o desprezo do poeta e da musa:
a contemporaneidade corrompeu seus versos, sua beleza, sua imagem.
Emaranhando farsa verso e música, poeta poetisa e poesia
lançam-se ao acaso e num ritmo automático a escrita se faz só.
História e historicidade são ambas história, mas não são a mesma coisa
e nem mesmo a mesma história...

O carro de som passa por entre as ruas asfaltadas
plantou um jardim de acordes no grande tapete de piche fazendo florir
a mais bela tragédia da contemporaneidade:
vejam! uma flor de cimento, pedra e pó desabrochou...
Chorosa não quis nem mesmo se portar próxima ao meio fio ou à calçada
ousou nascer e interromper o trânsito
a fazer soar o pesar das buzinas o cantar dos pneus...
Agora a pobre flor de pedra não consegue respirar a poeira de enxofre
a farinha diária, o pão amassado pelo diabo... e fermentado pelos homens!

Óh modernidade, ou pós pós modernidade, como eu a abomino!

"Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos
Tenho abundância de ser feliz por isso
Meu quintal é maior do que o mundo..."
(Manoel de Barros)



sábado, 27 de março de 2010

O que vi hoje...

Hoje vi a face brasileira que não é exposta nos outdoors, que não é mostrada nas propagandas políticas, que não é retratada nas novelas e nem mesmo nos programas da mídia. Hoje, juntamente com as nuvens, tive uma visão periférica ao qual eu nunca tinha visto antes. Hoje saí pelas ruas e resolvi desvelar o que estava velado. Hoje o mundo desconstruiu-se, ou melhor, a parte de mundo que eu conhecia desfe-se, e abriu passagem para uma outra realidade. Hoje conheci o barro... a lama. Conheci cientimente o descaso de toda uma lógica neoliberal, ao qual ousa abafar e maquiar a força e a relevância de um povo. Povo vilipendiado, martirizado, ameaçado por um exército econômico, por um governo fetichista, por um sistema excludente...
Mas não, não me admiro por ter conhecido tal face, por ter contemplado tal situação... mas porque hoje, justamente hoje, simplesmente hoje tirei meus pés do asfalto e os pus no barro. Meus pés não só pisaram no barro, como também entenderam que eu e o barro somos um, e nós, efetivamente somos POVO. Enquanto meus pés interagiam com o barro, dividindo da mesma essência, esquecendo a quentura do asfalto, o tumulto da metrópole, a guerra do consumismo...
Eu e o barro, eu POVO, vi e presenciei a fome, os subúrbios amontoados, as escolas depredadas, mas em contrapartida desses aspectos pesados, consegui, junto ao barro, ter acesso à face humana e altruísta. Esqueci-me por instantes da competitividade, da ganância e da vontade de ser maior que os outros, por que isso longe do tapete cinzento do asfalto, não tem tanta importância...
Enquanto o governo maqueia a face do povo, enquanto o neoliberalismo procura do barro instituir o asfalto, eu, com os pés no barro, hoje vi que a humanidade ainda tem remédio...
Que as crianças são a esperança, que a educação pode revolucionar, que a política deve e tem que ser execida e praticada pelo povo. Eu sou povo, e acredito em mim, POVO!
O que vi hoje é apenas uma ds diversas faces do povo brasileiro.
Pus os pés no barro e não me arrependo de hoje, ter me reconhecido como povo, capaz de solucionar grande parte dos problemas sociais a partir da minha voz rouca e baixa, mas que junto a milhares iguais à mim, a voz soaria em tom resonante, se faria ser ouvida...
O que vi hoje, nunca hei de esquecer!

Condão

Quando escrevo, não imponho limites: Me derramo, me desvelo, A poesia então num ato de cerzir Emenda minha existência com a dela. ...