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domingo, 29 de junho de 2014

Memória Ancestral

"Ave musa incandescente, do deserto do meu sertão"
(Ariano Suassuna)

As fogueiras pintadas na cidade, em pleno planalto central do país
numa noite sem luar, numa noite estrelada,
numa noite estralada pelo frio.
É dia de são Pedro,
é dia de queimar fogueira, de estourar pipoca,
de temperar canjica e de beber quentão.
As 'gentes' ao redor do fogo,
reproduzindo os costumes de um povo,
vindos do sertão.
A cachaça batizada, ofertada à vida e ao santo
rasga a garganta, aquece o corpo,
anima a festa e gira o mundo!
As bandeirolas exuberantes xaxando
seguindo o conduzir do vento,
a prosa boa, o riso fácil:
são levezas tecidas à sombra do fogo.
O coco, o xote, o forró, o baião,
os casais bailando:
-São Pedro, salve! Quanta animação!-
Mas lá pelas tantas, bate um saudosismo,
a madrugada vem trazendo, em cortejo,
a saudade de um tempo que não se viveu,
no entanto as raízes evidenciam nossa memória ancestral:
Viva Franciscos, viva Antônios, viva Eduardos,
que nos ensinaram, pelos laços sanguíneos
como é gostoso reconhecer-se
como povo festeiro, guerreiro,
povo alegre, do SERTÃO...

quinta-feira, 7 de julho de 2011

A um amigo...

Certa noite, numa dessas conversas virtuais, pediram-me para compor um poema:
um poema que falasse dos riso saído
do papo agradável
do inglês não dito.

Pediram-me para compor uns versos
que retratasse a graça da vida,
a música preferida,
a infância perdida.

Queriam que eu transfigurasse nos versos
a singeleza da flora,
a beleza da fauna,
a conquista da alma...
o sabor do saber.

Pediram-me, suplicaram-me,
julgando ser eu poetisa
capaz de tamanha proeza...

Mas não, não conquistei ainda a sensibilidade
de reunir num único poema o singificado de um alguém tão cômico...

domingo, 4 de julho de 2010

Os camponeses jazem cansados da labuta
da dança corpórea, revestida de força
num instante profundo
parecem descansar
com pés descalços
...
A lida na terra,
as feridas na alma
as chagas no corpo:
mas a terra acolhe e aterra
as lamúrias deles que,
sol a sol, plantam, aram e colhem...
carinhos feitos no ventre ditoso
da Terra que gira
gira, gira.

sexta-feira, 2 de julho de 2010


As flautas não soam mais doces quanto outrora, o violino lança agora notas de angústia e cobrança: por que não entoastes outa canção?
O violão, a harpa, a rabeca e o pife reverteram suas musicidades
para o desprezo do poeta e da musa:
a contemporaneidade corrompeu seus versos, sua beleza, sua imagem.
Emaranhando farsa verso e música, poeta poetisa e poesia
lançam-se ao acaso e num ritmo automático a escrita se faz só.
História e historicidade são ambas história, mas não são a mesma coisa
e nem mesmo a mesma história...

O carro de som passa por entre as ruas asfaltadas
plantou um jardim de acordes no grande tapete de piche fazendo florir
a mais bela tragédia da contemporaneidade:
vejam! uma flor de cimento, pedra e pó desabrochou...
Chorosa não quis nem mesmo se portar próxima ao meio fio ou à calçada
ousou nascer e interromper o trânsito
a fazer soar o pesar das buzinas o cantar dos pneus...
Agora a pobre flor de pedra não consegue respirar a poeira de enxofre
a farinha diária, o pão amassado pelo diabo... e fermentado pelos homens!

Óh modernidade, ou pós pós modernidade, como eu a abomino!

"Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos
Tenho abundância de ser feliz por isso
Meu quintal é maior do que o mundo..."
(Manoel de Barros)



segunda-feira, 12 de abril de 2010

Sonho bobo


Hoje só queria mesmo pronunciar ao menos algumas palavras, que esvoaçadas ao vento, fugiram de mim para contemplar a realidade exterior...

Hoje, somente hoje, queria ao menos roubar um pedaço das nuvens e sentir se são realmente feitas de algodão doce...

Hoje, queria só olhar pro ontem e não mais me arrepender de não ter arriscado, de não ter dito, de não ter ido...

Hoje, quero eu não lamentar as escolhas tomadas, os caminhos traçados, as linhas apagadas...

Hoje como em qualquer outro dia, simplesmente quero me prender às asas de uma louca e bela borboleta, e sair por aí trilhando sonhos, brincando de ser poetisa, de ser gente grande...

Hoje e em todos os outro dias vivo brincando de viver... viver intensamente!

Alguém aí quer me acompanhar?

Condão

Quando escrevo, não imponho limites: Me derramo, me desvelo, A poesia então num ato de cerzir Emenda minha existência com a dela. ...