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sexta-feira, 29 de julho de 2011

Saudosismo

E hoje, meio que repentinamente,
como algo que salta do peito de um mortal,
fui arrebatada por uma saudade,
uma saudade desfocada,
com cheiro de livro antigo
e cara de plantas secas,
com um quê de vida morta...
Ai, saudade,
aqui dentro suas traças me devoram,
sua cor me apavora
e o saudosismo de tantas coisas
isso, sim, quero que vá embora!

obs: foto de Zaira Reple

sexta-feira, 2 de julho de 2010


As flautas não soam mais doces quanto outrora, o violino lança agora notas de angústia e cobrança: por que não entoastes outa canção?
O violão, a harpa, a rabeca e o pife reverteram suas musicidades
para o desprezo do poeta e da musa:
a contemporaneidade corrompeu seus versos, sua beleza, sua imagem.
Emaranhando farsa verso e música, poeta poetisa e poesia
lançam-se ao acaso e num ritmo automático a escrita se faz só.
História e historicidade são ambas história, mas não são a mesma coisa
e nem mesmo a mesma história...

O carro de som passa por entre as ruas asfaltadas
plantou um jardim de acordes no grande tapete de piche fazendo florir
a mais bela tragédia da contemporaneidade:
vejam! uma flor de cimento, pedra e pó desabrochou...
Chorosa não quis nem mesmo se portar próxima ao meio fio ou à calçada
ousou nascer e interromper o trânsito
a fazer soar o pesar das buzinas o cantar dos pneus...
Agora a pobre flor de pedra não consegue respirar a poeira de enxofre
a farinha diária, o pão amassado pelo diabo... e fermentado pelos homens!

Óh modernidade, ou pós pós modernidade, como eu a abomino!

"Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos
Tenho abundância de ser feliz por isso
Meu quintal é maior do que o mundo..."
(Manoel de Barros)



quinta-feira, 8 de abril de 2010

Sabe aqueles dias que você pára toda a correria da rotina, respira e começa a refletir sobre o seu comportamento mecânico dos últimos dez anos da sua vida? Sabe quando você percebe que há algo de errado com o estilo de vida dos contemporâneos? Que as crianças antes de entrarem para a escola trilham sonhos próprios, e depois que nela entram, são abortados metade dos sonhos delas e os que ficam, são os que o sistema padroniza como sonhos...?
Sabe aquelas horas que a gente sente falta de alguma coisa, dentro da gente mesmo, que as pessoas que pegam ônibus com você estão sempre reclamando do sistema coletivo de transporte e da vida também? Sabe quando a gente nota que nossos hábitos se parecem com "Tempos modernos", do Charles Chaplin, só que ao vivo e à cores?
Sabe, nessas horas sinto uma felicidade tamanha... não porque nos tornamos mal amados, frígidos, porque nosssos planos são basicamente comprar um carro e passar num concurso público, mas porque estamos em crise! E não pensem precipitadamente que as crises são ruins... não, elas não são! Através delas conseguimos detectar os problemas, conseguimos enxergar nitidamente o que nos falta, o que foi perdido e o que é preciso recuperar. São com as crises que vemos nossa existência com outros olhos, que somos capazes de sair da monotonia, arregaçar as mangas e partir para uma mudança...
Sim, gosto das crises porque elas me possibilitam mudar, recriar, reinventar, e por que não, renascer... Renascer dos erros, das armadilhas do neoliberalismo, da doutrinação global, da massificação dos seres... Renascer dos preconceitos sobre as minorias, das guerras civis, da trágica corrida armamentista, do inescrupuloso discurso econômico... e assim trilhar uma nova história.
Sabe, hoje pode ser um dia desses, aliás, algo importante a ser lembrado: HOJE é sempre dia de renascer... então, não perca tempo nem mesmo vida esperando para renascer outro dia, faça-o agora! Renasça e faça da sua hístória, uma história diferente!!!!

Condão

Quando escrevo, não imponho limites: Me derramo, me desvelo, A poesia então num ato de cerzir Emenda minha existência com a dela. ...