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segunda-feira, 6 de junho de 2011

...

Que os medos enrustidos em meu corpo
não me façam perecer...
Que o íntimo chagado, ferido
mais que dores, resultem também em aprendizado...
Estas lágrimas, que não cabem nesses olhos
regue sonhos vindouros...
O que fui, fui...
O que há por vir, virá...
São momentos pessoais, asas renascendo,
crises, tristeza,
por isso não me peçam um riso falso,
uma satisfação inexistente,
ou qualquer ato que não seja verdade,
pois a intensidade da vida consiste na verdade que nós damos a ela.
- Silêncio, eis agora meu amigo

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Rosas arrancadas

Arranquei as rosas e as pus sobre mim.
Não me deti às dores causadas pelos espinhos,
ao aroma que exalavam,
às cores que pulsavam...
Arranquei as rosas e as pus sobre mim:
não feri minhas mãos tanto quanto meu coração,
não sujei-as tanto quanto meus pés,
mas as arranquei...
Nem por amor, nem por dor,
por nada,
apenas por meu querer,
pra satisfazer meu ego
e vê-las,
junto a mim, faceler...
arranquei as rosas e as pus sobre mim:
para amenizarem minhas dores,
sanar as carência,
apagar as ausências
e me ouvirem falar.
Eis o único motivo simplório
pelo qual matei-as:
matei-as para verem elas também o meu sucumbir...

terça-feira, 20 de julho de 2010

Fim

Se um passo eu der
se um grito soltar
se um salto eu forçar
tudo poderá ter seu fim...
Se as recordações eu queimar
se na luta eu fraquejar
se o choro fluir
minha solidão irá fruir...
Se meu abrigo desabar
se nas ruínas eu permanecer
se do pó, eu renascer
aí sim, a vida enontrará seu fim....

quarta-feira, 31 de março de 2010

E do riso fez-se o pranto

Palhaço solitário, nas coxias, o panquê dá lugar ao sofrimento de um existente...
O nariz vermelho, expressivo, dá vasão à lágrimas que se deleitam e escorrem na face do escultor de milhares de sorrisos. A peruca já deixada de lado, colorida, excêntrica, expressiva, abre caminhos para o sofrimento e o remorso do indivíduo que impera sobre os picadeiros... Lona já não há mais, há apenas o trágico e cômico picadeiro da vida. De seus olhos, olhos grandes, chuva de lágrimas, pranto indefinido, solidão! Às avessas, como que vendo a vida por um retrovisor, sua boca lança palavras e escárnios à banalização da arte, à arte de viver... Enquanto uma pequena quantidade de crianças encantam-se pelo seu riso, outras milhões contentam-se duramente com a frieza das ruas, com os restos de comida nos lixões, com os perigos e as calçadas imundas ofertadas como casas, e risos, elas não mais possuem.
O palhaço vê o reflexo de suas próprias lágrimas, as lágrimas derramadas por um batalhão de pedintes, lágrimas que rogam, mesmo em silêncio, por aqueles que não tem riso, e de prantos vivem a derramar... O palhaço enquanto artista, enquanto homem, mesmo a embalar risos e gozos, jamais se esquece dos abismos sociais, dos direitos tidos como Direitos Humanos Universais, ao qual sua universalidade é banalizada e posta à prova. Mesmo em diálogo com a utopia, não exime-se a derramar suas lágrimas por quem talvez não dê espaço mais para a inocência, para as brincadeiras descontraídas, para os sonhos infantis... Mesmo sendo construtor de um universo mágico, procura sempre manter os pés, com sapatos enormes e extravagantes, firmes nesta realidade de ricos e pobres, de negros e brancos, de minorias e maiorias.
Mas o que fazer com suas lágrimas, com sua consciência, com o pesar que habita tanto em sua mente quanto em sua face? As lágrimas, a inquietude, a desconsolação retratam apenas aquilo que é absorvido por quem tem olhos e não pretendem mantê-los cerrados ou vendados... Por quem, mesmo que pequeno diante de tantos problemas, assume as dores de terceiros como fossem suas, e talvez sejam essas dores sua também... Não é misericórdia, não é pena, nem mesmo caridade fingida, mas, sumamente a matéria que compõe seu pranto é sensibilidade, altruísmo, humanismo!
O palhaço, artista popular, conhece como ninguém o peso e as injustiças geradas pelo preconceito, pelo descaso e pela prepotênica humana. Ele, assim como tantas e tantas crianças que sobrevivem nas ruas, sabe a diferença exata entre o discurso e a prática, entre as convenções impregnadas de preconceitos e os interesses políticos. Ele conhece as feridas feitas pela indiferença, elas as sente diariamente em sua pele... Assim como as crianças abandonadas nas praças, conviventes com as drogas, com a violência, ele também, assim como elas, faz-se mártir dentro de um sistema devorador.
Seu trabalho, embora belo, não é reconhecido...
Seu sorriso convertido em pranto, não é visto...
Sua arte, sua vida, seus sonhos, suas lágrimas são todos eles marginalizados....
Mas não se dá por vencido, e a cada dia, a cada novo espetáculo, lança sementes de alegria, planta e colhe esperanças, por mais que seus atos não sejam reconhecidos, sua recompensa está mantida na força de viver, na tentativa pequenina de mudar os padrões. Depois do riso vem o pranto, e depois dele, vem novamente a vontade e os desafios de reconstruir o real...
Palhaço solitário, nas coxias o panquê volta à face, a inquietação permanece no ser e o movimento contínuo do mundo escorre... e com esse movimento, a esperança e as lágrimas renascem!
"Um dia tudo isso mudará..." pensa alto o palhaço com o rosto coberto de lágrimas, lágrimas que anseiam mudanças!

Condão

Quando escrevo, não imponho limites: Me derramo, me desvelo, A poesia então num ato de cerzir Emenda minha existência com a dela. ...