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sábado, 5 de fevereiro de 2022

Condão


Quando escrevo, não imponho limites:

Me derramo, me desvelo,

A poesia então num ato de cerzir

Emenda minha existência com a dela.

Siamesas, gêmeas,

Filhas da mesma cepa,

 de tantos pais e mães.

 

Quando escrevo, não me envergonho:

Das minhas vulnerabilidades

A poesia pulsa, lateja,

E como sangria corrente

Devasta-me do cerne à cerviz.

Recomposta das feridas, cicatrizadas

Sou matéria, obra-prima, raiz.


Indecisa,

Não sei ao certo se crio ou sou mera cria dela.

Caminhante erma, de estradas e cirros,

Faço da poesia o meu condão:

É aqui que me dispo,

Sendo o que sou

Me revelo,

Me faço verso e revolução.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Eu sou a estrada


Eu ando por lugares desertos buscando a solidão despovoada,
eu pinto paisagens na memória, com resoluções de aquarela
de alto teor abstrato.
Eu sigo por caminhos sombrios, protegidos por rios e almas,
porque é a natureza quem me fende, me defende,
quem me define, quem me prende.
Sigo o rumo, perco o prumo,
a estrada está em mim,
permanece em mim:
eu sou a estrada.
Sigo, caminhante de mim mesma...
Vou, perscrutando minhas próprias fendas...
R(E)xisto eu em mim.

  

sábado, 17 de setembro de 2011

Poesia de mim mesma

Flanar pelas ruas ardentes e calorosas, pelos caminhos feitos de asfalto,
com um som que nos interpela sem dó nem piedade,
com a garganta sedenta e a alma mais sedentea ainda,
busco no calor dos trópicos, abaixo do equador,uma poesia feita de fogo,
mais ardente que os 40º advindos dos raios solares.
Busco uma poesia que seja firme,que ao me relacionar com ela,
mê dê conta que antes de poetisa,sou eu a própria rima dos versos...
A estrada a me guiar, os versos ininterruptamente a saltar,
o tilintar dos pássaros acompanhando a melodia cardíaca,
os filósofos me devorando, os poetas falecidos sussurrando
e o mundo sendo todo meu...
Busco o que construo, niilismo maldito, ceticismo inseparável,
crendo somente em meus titubeantes passos...
Busco a poesia deformada, caótica,
abençoada por Demiurgo, e idealizada por Artaud,
talvez seja ela a loucura enrustida em sanidade,
mas a busco por ser ela a fonte vital,
aquela de que preciso,
aquela por quem sobrevivo,
a tão e única poesia de mim mesma.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Sou eu só, só eu

Em papeis velhos e desbotados

faço minha existência existir,

em palavras antigas, retrógradas,

me transcrevo só.

Os papeis sou eu...

As palavras sou eu...

Sou eu só,

Sou eu somente palavras

em que leitor algum sabe decifrar;

Sou código indecifrável,

papiro perdido no tempo,

matéria orgânica para tantos erros e acertos,

por quê não?
Sou eu só...

Sou mais que imagem,

problema semiótico,

antibiótico da constância.

Sou eu só...

Só eu!

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Quem era ela?


Durante esta manhã, olhava uma moça,
de cabelos negros e olhos vivos, era-me conhecida ela.
Na inquietude de seu corpo, de seu portar misterioso,
de seu colo magro e instigante, pude ver que emanava desejo e magia,
feminilidade, potencialidade... poesia.
Deixei-me levar por seus traços hostis, por seu desenho feito à grafite,
sem cuidado, tamanha rudez a envolvia, e eu olhava-na...
reconhecia-na de algum lugar, mas de onde?
A manhã foi seguindo, meio ensolarada, meio encoberta,
porém encoberta era a figura que meus olhos não ousavam desencarnar.
Aparentemente forte, a reconheci de meus sonhos utópicos,
de meu baú repleto de quinquilharias,
das recordações de minha infância já desbotada...
Quem era ela? Quê era ela?
Não sei, não sei, mas sei que seu semblante enrustido em mim está.
Talvez ela seja eu, seja o sonho meu sobre mim mesma...
Quem sabe?

segunda-feira, 6 de junho de 2011

...

Que os medos enrustidos em meu corpo
não me façam perecer...
Que o íntimo chagado, ferido
mais que dores, resultem também em aprendizado...
Estas lágrimas, que não cabem nesses olhos
regue sonhos vindouros...
O que fui, fui...
O que há por vir, virá...
São momentos pessoais, asas renascendo,
crises, tristeza,
por isso não me peçam um riso falso,
uma satisfação inexistente,
ou qualquer ato que não seja verdade,
pois a intensidade da vida consiste na verdade que nós damos a ela.
- Silêncio, eis agora meu amigo

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Eu (d)eus eu

Perdida em mim, por aí,
voltas e voltas, permaneço ali... aqui.
Eterno retorno, devir, ciclo hermenêutico... será?
Num canto, canto meus demônios,
desafio meus santos,
sou eu (d)eus.
Em meio ao verde, perco-me,
nos tons de terra, planto-me...
Quem me regará?
Me podará?
No mesmo canto que não é mais o mesmo
canto meus demônios,
que são tantos,
desafio meus santos, e,
constantemente,
sou (d)eus eu.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Vida

O que chega à mim senão luz
o que me atrai senão cores
o que me mata senão a morte...
Aquilo que me intriga,
aquilo que me devora,
aquilo que me amedronta,
aquilo que não sei o que é...
Deixar ir e voltar,
gozando do movimento, do calor
pois a vida é mesmo assim,
não se pode ficar parado
e nem mesmo correr demais!

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Humano-humano

Daquelas folhas ressequidas,
dentre cascalhos e verdes desbotados
a normalidade despiu suas vestes
e o 'des-padrão' calçou suas asas.
Dos tons de marrom nasceu a humanidade:
nem lúcidos, nem dementes,
sem asas voam,
vulneráveis, sobrevivem sem saberem andar,
nadar,
falar...
Eh, humanidade, tão demente e tão sabida
que não mais sei se o que sabes
de fato é saber.

Grito

Pintar cada pingo de chuva com a cor que se quer
é mais audacioso
que deixá-las em branco.
A solidão de cada qual
é o canto profundo de cada ser:
pisar em flores mortas
mesmo estas estando no jardim à beira da porta.
Vizinhos se aprochegam,
espiam, e mesmo curiosos
não conseguem entrar...
São segredos, flores mortas,
que não interessa a ninguém saber:
Senão eu, senão tu...

domingo, 23 de janeiro de 2011

Guardiã

Eis os pesos de se guardar a madrugada
de não cerrar os olhos perante as mordaças pueris do tempo
de se permitir velar o sono do mundo, das horas...
Saber que estas, as horas,
voam,
são consumadas até as últimas gotas
gotas d'água,
gotas oníricas,
gotas reais!
E o sol surge há findar minha aquarela...

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

B(r)anco Homem

Foram-se...
os frutos, os homens, as brisas;
Jazem ausências, solidões,
vácuos desbotados, envelhecidos,
caixões dispostos a nos acolherem,
sopros vitais desgastados...
A praça permanece, o banco permanece
o homem que ali fazia-se sentado
esta tarde voou.
As folhas caem, as árvores morrem,
as flores murcham,
o homem foi-se,
mas ali, olhe atentamente,
o banco permanece, em seu metal duro...
foram-se e lá está ele.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Vendas²

Vendas... vendas... vendas:
nos olhos,
lojas nas praças,
verbo do tu.

Vendas vendendo vadias vendas
Vendas vilipendiando violentamente visões
Vendas tu, o teu próprio ser.

Atentais vossos olhos
às vendas que as vendas vendem,
vendando a humanidade,
vedando a liberdade,
sem ver...
Vendas... vendas...
não se venda!

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Eu

Aqui estou mais próxima da minha loucura,
aqui encontro-me com minha vaga lucidez,
aqui escondo minha face,
aqui revelo quem sou:
não há portas, maçanetas, chaves,paredes...
Não há homens, nem mulheres,
algozes e benfeitores,
nem tão pouco astros e entidades simplórias.
Aqui, nesta carne que se move,
neste corpo que salienta-se,
há um EU humano,
sem gênero, sem sexo, sem classe, sem ofício:
Eu corpo, Eu espírito,
Eu deus, EU deusa,
Eu tudo - Eu nada

domingo, 8 de agosto de 2010

Nua

Resolvi me portar nua
lançadas as algemas do pudor
minha pele como nunca é capaz de sentir
o trafegar da brisa por entre os poros,
de empiricamente comprovar que o sol
quando aquece, também pode queimar.
Resolvi me apresentar sem máscaras,
sem tecidos, mas cheia de medos,
de fragilidades, de lágrimas que outrora petrificadas
hoje escorrem à luz do dia.
Não quero a liberdade, não quero voar,
nem mesmo sumir,
quero somente na simplicidade complexa do meu ato de existir
ser o que sou, corpo e alma,
mulher, amada e amante...
Não almejo nada senão o agora...
Ser hedonista, o que importa é mesmo viver.
A que lado estou encaminhando minha existência?
Até onde já fui capaz de compreender minha essência?
Minha nudez fala por mim!
O frio que sinto, o calor que gozo,
a brisa que passeia em mim,
eles não são tão importantes,
mas sei de fato que o que realmente importa
é a leitura que faço de tudo o que me cerca.
Ressignificar... ler... recriar:
transgredir!
Mais que nudez,
meu corpo descoberto revela
a chama da vela que clareia o meu ser:
ser Ser, sendo... só!

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Tic tac


Perguntei a um transeunte:
'que horas são?'
e com naturalidade, sem espanto, sem reflexão algumas,
respondeu-me:
'são noves horas'
...
Ouvi os sinos da igreja mais próxima soarem, e
em questão de segundos julguei
ser aquele momento imortal.

Mas que horas são?
Meu relógio não marca as horas,
não há ponteiros e nem tão pouco números nele,
meu relógio não escraviza esses vestígios de tempo
na realidade, sequer sei se o tempo existe!
Meu relógio bate bem aqui,
interiormente
sem cordas alguma,
ele é extremamente carnal...
Ninguém o conhece,
ninguém pode vê-lo,
talvez seja sempre atrasado,
não corre nunca!
Mas a imortalidade de suas horas
dura somente o agora:
o agora é sempre sua hora!

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Apolínea e dionisíaca

Sou apolínea quando trago a racionalidade e o equilíbrio
sou dionisíaca quando deixo minha subjetividade florescer.
Apolo está em mim quando estou diante o espelho
Dionísio no espelho cabe também.
Apolo prevalece quando prefiro dar vasão à razão,
mas Dionísio me atrai quando à emoção dou razão...
Apolínea quando estudo,
Dionisíaca quando escrevo...
Meu estar no mundo se faz completo quando integro a lucidez de Apolo à embriaguez de Dionísio!
Sou apolínea sem deixar de ser dionisíaca,
racional, objetiva, lúcida...
Sensível, subjetiva, desvairada...
Raptei Apolo e Dionísio do panteão
e os fiz habitar no Olimpo que sou eu.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Flor-Eu

Meus lábios eu não pinto de carmim,
meu colo não perfumo de jasmim,
minhas madeixas não se rendem à autoridade de um pente...
Nos meus pés não cabem saltos,
minhas unhas já vieram feitas,
e meu corpo não se rende à marcas...
Não traduzo versos em francês,
não gosto de canções em inglês,
as joias que uso são frutos da terra!
Sou flor macabra, sou margarida ressequida,
sou planta sedenta... obscura
mística, necessitada de consolo
abandonada num jardim.

domingo, 11 de abril de 2010

Conflito


Enquanto deixamos nossos prazeres passarem, a morte aproxima-se mais de nós.
Enquanto o sistema nos engole, a vida perde sua autonomia, tornando-nos mais infelizes.
Por que então lutar no mesmo intuito, correr a vida inteira por coisas banais?
Por que então, cessar os sonhos e comodamente contentar-nos com o real?
Acatar em vão o drama, e do sorriso não restar nem mesmo os dentes?

O espelho nos encara e seu reflexo não nos reflete!
Mas ainda teimo em me encontrar,
em me perder nos meus instintos,
em gozar dos meus prazeres...
Pouco importa se me rotulam de hedonista, de empírica, de quimérica...
O que mais me importa então, é esse não viver somente presa à realidade...
mas inventar, recriar e estar em tantos mundos, mudos:
me reconhecer em todos eles!

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Resgate de mim

Certa noite a brisa trouxe-me uma mensagem.
Sem remetente, sem envelope, sem CEP ou algo mais que possibilitasse saber de onde ela viera. Chegou sorrateiramente, entrou pela janela, passeou por todo meu corpo, penteou meus cabelos, e ao chegar aos meus ouvidos, deliciosamente sussurrou... Embriagada com o momento, acompanhando a vagarosa e leve dança, levitei e junto ao seu pedido sussurrado, voei. Saí do meu quarto passei pela varanda e quando me dei conta, já estava sobre o jardim.
Aos poucos fui saindo do meu habitat, e logo estava eu brincando por entre as estrelas, ouvindo a belíssima Lua declamar seus versos e poemas preferidos. Fui ao seu encontro, e ela timidamente acomodou-me em seus átrios. Sensações... Sensações... Sensações.
Plenamente em estado de gozo, descansei e me pus a contemplar o que estava me acontecendo. Lá de cima, vi as pontas dos arranhas-céus, os grandes centros comerciais, os outdoors hiper iluminados, as campanhas imperativas "COMPRE!", "EXPERIMENTE!", "LEVE!", "ADQUIRA!". Vi também as fumaças escuras, borrando o céu, dando às nuvens formas e feições obscuras, pesadas e sobretudo dando-as poluição. Aos sons dos versos lunares, percebia que lá em baixo nós estávamos matando-nos. Matando a nós, matando ao Planeta!
Nem sequer senti saudade...
Nem mesmo quis voltar...
Sonolenta, lembrei-me da minha infância, dos meus sonhos de moleca, das minhas quimeras, dos meus planos de mudar o mundo. Pude os ver nitidamente, pude inclusive detectar onde permaneci a mesma e onde mudei... As mudanças, nossa, essas me assustaram! Algumas de bom grado, outras, em grande maioria, fizeram-me refletir. Tudo aquilo que eu era, poucos vestígios restaram. E tudo o que abominava outrora, tivera eu me tornado... Interrogações. ???
Assim vi que deixei de sonhar, que deixei de valorizar as fantasias, que me tornei mais uma pessoa frustrada, ao qual há muito tempo abortei o meu "ser criança". Decepcionada, derramei torrentes de lágrimas, e quis fortemente voltar ao tempo passado na tentativa de reconstruir minhas escolhas. Inútil querer! Não poderia definitivamente voltar ao passado.Enxuguei as pesarosas lágrimas e pedi apenas para voltar, não ao passado, mas ao meu canto, ao meu simples quarto.
Vagarosamente voltei...
Voltei ao meu quarto e com os pés no chão optei por dar uma inversão à minha vida. Mergulhei a fundo em meu âmago, e de lá colhi os sonhos e os quereres quase esquecidos, os valores desbotados e tudo o mais que a contemporaneidade me fez abortar. Juntei tudo isso, enchi minha mochila e compactuei comigo mesma que a partir daquele instante, faria valer a pena a diversidade, o movimento e a brevidade da vida. Encarando meu reflexo no espelho, pude reconhecer-me novamente.
Vivenciei a experiência pura e completa de ser aquilo que sempre fui: uma criança, uma existente VIVA de verdade!!!

Condão

Quando escrevo, não imponho limites: Me derramo, me desvelo, A poesia então num ato de cerzir Emenda minha existência com a dela. ...