segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Canção de admiração


Colos alvos despidos
entre faces,
lances,
nuances de um universo multicor
Cabelos esvoaçantes,
lábios rubros
corpos lâguidos,
olhos cerrados,
cânticos entoados.

São arcanjos,
reluzentes,
endiabrantes,
cujas formas enfeitiçam
resvalam poder,
(re)formas,
desfazem tabus:
fogem do norte, preferem o sul.

Não creio nas canções dos poetas, nos depoimentos do boêmios,
nas juras simplórias do macho imponente...
O que vejo, o que sinto, o que desejo
simplesmente perante esses colos alvos nus
são migalhas valiosas,
são cânticos interiores,
transgressores,
recordações cravadas
de quem não é musa
mas revela em seu canto sua admiração e o poderio de se ser mulher.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Anti-notícia


"Porque a dor da gente não é noticiada no jornal..."
(Artur da Távola)

Menos mal...
Não é noticiada, mas é compartilhada:
não por mortais, mas pela lua que me banha
com sua luz branca e fria.
Porque a dor da gente é sentida,
curada e esquecida.
Menos mal...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Rosas arrancadas

Arranquei as rosas e as pus sobre mim.
Não me deti às dores causadas pelos espinhos,
ao aroma que exalavam,
às cores que pulsavam...
Arranquei as rosas e as pus sobre mim:
não feri minhas mãos tanto quanto meu coração,
não sujei-as tanto quanto meus pés,
mas as arranquei...
Nem por amor, nem por dor,
por nada,
apenas por meu querer,
pra satisfazer meu ego
e vê-las,
junto a mim, faceler...
arranquei as rosas e as pus sobre mim:
para amenizarem minhas dores,
sanar as carência,
apagar as ausências
e me ouvirem falar.
Eis o único motivo simplório
pelo qual matei-as:
matei-as para verem elas também o meu sucumbir...

sábado, 18 de dezembro de 2010

Saia-dela

Na gira da saia dela
um balaio de cores, tantas cores,
tantas flores, muitos sons:
que eu me encanto, fascinada,
não digo nada,
me envolvo, me excito
no balanço do balaio de cores dela.
Na cor da pele dela
histórias sem fim,
melanina, mel e canela,
renascendo no fulgor
na barra da saia da moça de cor.
No emaranhado das madeixas dela
pensamentos martelam
enquanto que as cores dela
o mundo conduz...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Simples canção

Esta canção vem falar das acusações,
das portas fechadas,
das amizades idas,
das lágrimas perdidas...

Esta canção fala das tristezas,
dos acordes, desacordos,
manias de solidão,
refúgios em vão(s)...

Cancioneiro debruçado
recordando aos fatos,
remoendo os erros,
perfurando, entre farpas, os dedos.

Esta é minha canção,
sem métrica, em sons...
Esta é uma canção,
falando apenas da solidão!

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

B(r)anco Homem

Foram-se...
os frutos, os homens, as brisas;
Jazem ausências, solidões,
vácuos desbotados, envelhecidos,
caixões dispostos a nos acolherem,
sopros vitais desgastados...
A praça permanece, o banco permanece
o homem que ali fazia-se sentado
esta tarde voou.
As folhas caem, as árvores morrem,
as flores murcham,
o homem foi-se,
mas ali, olhe atentamente,
o banco permanece, em seu metal duro...
foram-se e lá está ele.

sábado, 27 de novembro de 2010

Filha das águas

O curso do rio
determina onde vou...
As vozes das árvores entoam cantigas de consolo
à solidão de uma poetisa fugitiva,
que chora, chora,
derramando lágrimas de lembranças fugidias
alimentando o leito do rio
que dita seu curso.
Mulher medieval
mistério
e
magia
acalantam meu colo.
E o rio, ah, o rio
ele ainda dita as águas que devo seguir...

Àquela que se foi...

Embarcada na intensidade de pesadas nuvens cor de azul-solidão
rogo aos mortais daqui do meu ponto,
do meu porto,
do meu morro...
Velo, sentindo a ausência dos que se foram,
desejando o melhor e a luz necessária
a quem partiu...
amizades são nuvens, nunca leves, mas sempre intensas,
e a ausência dessas
revoga minha fortitude de mármore.
Frieza deixa de ser frieza,
face inerte deixa de ser inerte
e ela ainda me faz falta...
Não é glorioso reconhecer a falta
de quem faz falta, não é honroso
passar e fingir não ver...
Mas sou pedra,
e daqui do morro, porto, ponto
cubro minha face de vergonha e
permito as nuvens passar.
Elas passam, ela passa
eu fico
.

domingo, 21 de novembro de 2010

O homem sob a boina...

À Maximino Basso

“O homem sob a boina é forte e fraco,

É velho, mas é jovem, é santo e algoz...

É mortal com alma imortal...

O homem sob a boina traz em si um carisma jovial,

Uma ânsia de aprender, um gosto pelo saber...

Ainda está aprendendo, mesmo com tanto saber, ainda só sabe que nada sabe...

Pensamos todos nós juntamente com sua pessoa: também sabemos que nada sabemos!

O homem sob a boina é autêntico,

Mas traz em si um pouco de todos: a figura paterna, a luz do mestre,

A sabedoria da filosofia, a humanidade quase perdida...

O homem sob a boina é grande e pequeno,

É sagaz e simples,

É Max, mas também é Basso, é de todos e de ninguém...

O homem sob a boina ensina muito e aprende mais,

Instiga, confronta e ama, sobretudo o seu ofício:

É professor, é educador!

Tamanho prazer é vê-lo presente nos tempos remotos de Heráclito,

De Aristóteles, de Plotino...

Possível é vê-lo flanando junto a Sócrates, procurando o homem junto a Diógenes, e sendo querido tanto quanto Abelardo...

Prazer enorme é ouvi-lo... É vê-lo empolgado com Lévinas,

Extasiado com Heidegger,

Degustando um bom vinho e uma bela poesia.

O homem sob a boina pensativo em silêncio é uma aula eloqüente da mais pura filosofia,

Dispensa o uso da palavra, sua ontologia jovial torna- nos constantemente renovados.

Boina, óculos, colete, jeans e Adidas: mesmo por entre esses artefatos,

Sua figura é impossível de ser apagada.

Seus pergaminhos, jamais serão extintos!

Tornou-se exemplo, tornou-se terno,

Tornou-se aquele ente feito de carne e osso, membro e braço,

A nossa lenda viva, a pedra fundamental, grande figura:

Professor Basso!”



segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Etapa

"Sem lenço e sem documento, eu vou..."
(Caetano Veloso)

Minhas costas fecham um caminho enquanto
minha face abre outros mil.
Sem mochila, bagagem, tudo é novidade,
é espanto, diante o absurdo misterioso
e sempre renovado da vida.
Não tenho nome, chamam-me loucura,
sanidade é o meu defeito,
controvérsias
cores e contra-valores!
Caminhando por aí,
a estrada é quem me conduz
enquanto meu olhar vagueia pela paisagem
meus pés deslizam por entre as pedras,
e a vida, ah, a vida
sem lenço, sem documento, sem nada segue...
segue...
segue.


quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Vendas²

Vendas... vendas... vendas:
nos olhos,
lojas nas praças,
verbo do tu.

Vendas vendendo vadias vendas
Vendas vilipendiando violentamente visões
Vendas tu, o teu próprio ser.

Atentais vossos olhos
às vendas que as vendas vendem,
vendando a humanidade,
vedando a liberdade,
sem ver...
Vendas... vendas...
não se venda!

Condão

Quando escrevo, não imponho limites: Me derramo, me desvelo, A poesia então num ato de cerzir Emenda minha existência com a dela. ...