terça-feira, 20 de setembro de 2011

O berço do kaos

Aqui nesta solidão cultivo apenas um querer...
Agora, neste exato instante alimento um único e mísero desejo...
Ah, esta noite 'setembrina' de intenso calor, de céu límpido,
de lua nova, de pequeninas e diversas estrelas a luzir.
Ah, esta noite em que o luar se faz tão claro, tão evidente
resgatando lembranças de um tempo bom,
trazendo a companhia querida dos amigos,
os sorrisos que foram soltos em tantas noites passadas,
ah, noite que me traz o movimento da dança,
o gole de vinho,
a filosofia em aula,
e o paraíso numa sala...
Havia naquele tempo um pequeno lugar encantado,
cujas paredes abrigavam o kaos,
era simples, o lugar, mas era um bom lugar.
Talvez não volte mais lá, talvez o 'eu' de outrora não exista,
talvez aja bastante 'talvez' ou talvez não aja mais nenhum...
Boas companhias, algumas mal encaradas,
outras cômicas demais,
e outras ainda pacientes demasiadamente.
Reviro meus papeis e neles restauro minhas esperanças,
um verso solto dá lugar a mais outro,
e recordo-me novamente o tal lugar:
talvez cafofo, talvez cafil,
-sim, este era o lugar...

domingo, 18 de setembro de 2011

As lágrimas que derramei...

Há muito que provocastes o meu pranto,
há muito que me fazes chorar,
há tempos minhas lágrimas caem, se esvaem,
e junto delas, minhas poucas esperanças.
O planeta sente as dores,
as crianças não brincam mais,
os homens não amam,
e as mulheres tornaram-se frígidas.
Há tempos que minhas lágrimas caem, se esvaem,
e sem elas, já não mais sei o que fazer.
A juventude, transviou-se,
as canções esvaziaram-se,
e os poetas já não mais existem.
O que faremos?
Que farei eu?
Certifico-me de que todo pranto derramado
mostrou-se inútil,
e ainda assim, águas saem de meus lânguidos olhos.
Hoje vejo, e reconheço,
as lágrimas que derramei não alcançam outro sujeito senão eu.

sábado, 17 de setembro de 2011

Poesia de mim mesma

Flanar pelas ruas ardentes e calorosas, pelos caminhos feitos de asfalto,
com um som que nos interpela sem dó nem piedade,
com a garganta sedenta e a alma mais sedentea ainda,
busco no calor dos trópicos, abaixo do equador,uma poesia feita de fogo,
mais ardente que os 40º advindos dos raios solares.
Busco uma poesia que seja firme,que ao me relacionar com ela,
mê dê conta que antes de poetisa,sou eu a própria rima dos versos...
A estrada a me guiar, os versos ininterruptamente a saltar,
o tilintar dos pássaros acompanhando a melodia cardíaca,
os filósofos me devorando, os poetas falecidos sussurrando
e o mundo sendo todo meu...
Busco o que construo, niilismo maldito, ceticismo inseparável,
crendo somente em meus titubeantes passos...
Busco a poesia deformada, caótica,
abençoada por Demiurgo, e idealizada por Artaud,
talvez seja ela a loucura enrustida em sanidade,
mas a busco por ser ela a fonte vital,
aquela de que preciso,
aquela por quem sobrevivo,
a tão e única poesia de mim mesma.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Eu sinto o sol

Aqui desse planalto, navegando num céu mais que límpido
sinto o sol...
Sinto a maneira como ele queima meu corpo,
me energiza, me fortalece.
Meu elemento é o fogo,
e deitada sob o sol sinto-me feliz...
a Terra gira em torno do sol,
o sol chega até nós,
e na grama seca, na umidade baixa,
aquecida,
esquecida,
sou mais uma mera mulher sob o sol...

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Vida (as)Sim

Tal como pétala perdida da flor,

tal como folha ressequida em beira ao inverno,

alvo chão,

neve,

o alvo não é o chão...

Antes da queda, o voo,

antes da perda, a evolução

antes só para se auto conhecer

do que desconhecido de si, mas acompanhado...

Tal como a folha esquecida no chão

que experimentou e desvelou

o que se quis

Assim é a vida, tal e qual a vida que se tem uma só.

Sou eu só, só eu

Em papeis velhos e desbotados

faço minha existência existir,

em palavras antigas, retrógradas,

me transcrevo só.

Os papeis sou eu...

As palavras sou eu...

Sou eu só,

Sou eu somente palavras

em que leitor algum sabe decifrar;

Sou código indecifrável,

papiro perdido no tempo,

matéria orgânica para tantos erros e acertos,

por quê não?
Sou eu só...

Sou mais que imagem,

problema semiótico,

antibiótico da constância.

Sou eu só...

Só eu!

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Saudosismo

E hoje, meio que repentinamente,
como algo que salta do peito de um mortal,
fui arrebatada por uma saudade,
uma saudade desfocada,
com cheiro de livro antigo
e cara de plantas secas,
com um quê de vida morta...
Ai, saudade,
aqui dentro suas traças me devoram,
sua cor me apavora
e o saudosismo de tantas coisas
isso, sim, quero que vá embora!

obs: foto de Zaira Reple

sábado, 16 de julho de 2011

Façam festa!

À minha pequenina Lua
Façam festa, façam festa,
minha princesa chegou!
O sagrado feminino, todo ser mulher
das minhas entranhas uma poesia viva tirou...
Entoem cantos, entoem cantigas,
rejubilando o novo rebento,
dou-lhe graças por eu ser cuidadora dela...
A natureza toda se manifesta,
em danças ancestrais
do meu ventre fecundado
um anjo foi arrancado
para este mundo
novo acorde entoar...


quinta-feira, 7 de julho de 2011

A um amigo...

Certa noite, numa dessas conversas virtuais, pediram-me para compor um poema:
um poema que falasse dos riso saído
do papo agradável
do inglês não dito.

Pediram-me para compor uns versos
que retratasse a graça da vida,
a música preferida,
a infância perdida.

Queriam que eu transfigurasse nos versos
a singeleza da flora,
a beleza da fauna,
a conquista da alma...
o sabor do saber.

Pediram-me, suplicaram-me,
julgando ser eu poetisa
capaz de tamanha proeza...

Mas não, não conquistei ainda a sensibilidade
de reunir num único poema o singificado de um alguém tão cômico...

Cotidiano

Dia de sol, brisa matinal,
logo cedo ingresso em mais um ônibus lotado,
caras feias (inclusive a minha),
pouco espaço, muitos corpos.

Quem era ela?


Durante esta manhã, olhava uma moça,
de cabelos negros e olhos vivos, era-me conhecida ela.
Na inquietude de seu corpo, de seu portar misterioso,
de seu colo magro e instigante, pude ver que emanava desejo e magia,
feminilidade, potencialidade... poesia.
Deixei-me levar por seus traços hostis, por seu desenho feito à grafite,
sem cuidado, tamanha rudez a envolvia, e eu olhava-na...
reconhecia-na de algum lugar, mas de onde?
A manhã foi seguindo, meio ensolarada, meio encoberta,
porém encoberta era a figura que meus olhos não ousavam desencarnar.
Aparentemente forte, a reconheci de meus sonhos utópicos,
de meu baú repleto de quinquilharias,
das recordações de minha infância já desbotada...
Quem era ela? Quê era ela?
Não sei, não sei, mas sei que seu semblante enrustido em mim está.
Talvez ela seja eu, seja o sonho meu sobre mim mesma...
Quem sabe?

Condão

Quando escrevo, não imponho limites: Me derramo, me desvelo, A poesia então num ato de cerzir Emenda minha existência com a dela. ...